Com Lula e George W. Bush, as relações entre o Brasil e os Estados Unidos navegam patamares nunca dantes alcançados.
O entendimento começa pela entropia lingüística chomskiana – o que antigamente se chamava ignorância, ou, mais cientificamente (pela antecipação do genoma), burrice.
(A qualidade mais admirável de Chomsky é a honestidade intelectual – ele jamais usaria a gramática preconizada por ele mesmo.)
Os idiomas que já foram de Camões e Shakespeare são perfeitamente estrangeiros para ambos – ambos os dois, para usar de uma precisão mais condizente com a ocasião social.
Afinal de contas, Camões era português, e Shakespeare, inglês.
A compreensão surgiu quando Lula explicou: “É preferível falar português que falar um mau inglês”, e Bush respondeu: “Eu também acho, mas o povo estranharia”. Perceberam que os intérpretes estavam traduzindo os sentimentos de um do outro.
Lula é o único governante estrangeiro que faz Bush sentir-se à vontade, exatamente por saber-se que não entende uma palavra de inglês.
Os dois podem cometer solecismos às gargalhadas, já que um não percebe o que o outro diz. (Agradeço este sentido de “perceber” aos portugueses.) É aí que começa o entendimento. Sentem-se em casa um com o outro. (Depois chamam os tradutores de traidores. O futuro do Brasil está nas línguas deles.)
Ou então conversam em inglês e português, ambos os dois, diretamente. Bush percebe que seu português é semelhante ao de Lula, que, por sua vez, tem um inglês que rivaliza com o do colega. Bush encanta-se cada vez que Lula, gentilmente, diz: “Não tem pobrema”, e repete a frase, com admiração, achando que Lula quer dizer que eliminou a pobreza. “O teu português é igual ao meu, Jorjão!”. “I misunderestimated your Lulla-by English!”
O conceito e a etimologia de solecismo no Dicionário Eletrônico Houaiss são tão deliciosos que me permito copiá-los (a “gramática universal” de Chomsky é a transformação do solecismo em regra. O “Sofista” de Platão ainda é uma revelação.):
SOLECISMO
n substantivo masculino
1 Rubrica: gramática.
intromissão, na norma culta de uma língua, de construções sintáticas alheias à mesma, ger. por parte de pessoas que não dominam inteiramente suas regras (p.ex., os chamados erros de concordância, de regência, de colocação, a má construção de um período composto etc.)
2 Derivação: por extensão de sentido.
algo imperfeito, falho; erro, falta
- etimologia
gr. soloikismós,oû 'erro contra regras de linguagem, solecismo; p.ext., falta contra as regras de educação', do v. soloikízó 'faltar com as regras da linguagem, falar incorretamente', este de sóloikos,os,on 'que peca contra as regras da linguagem, que fala mal', do top. Sóloi,ón 'Soles', nome de uma antiga colônia de atenienses estabelecidos em Soles, na Cilícia (região da Ásia Menor), que se caracterizavam por um dialeto que os puristas consideravam malfalado; o voc. penetrou no port. pelo lat. soloecismus,i 'id.'; f.hist. 1540 soloecismo acp. de gram
Sunday, November 06, 2005
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